Diante do horror apocalíptico de um
avião a deslizar sem freios, em alta velocidade, por uma pista de
aeroporto, e chocar-se a um prédio com terríveis explosões e chamas,
sem chance de sobrevivência para seus ocupantes, clamamos em alta
voz, com o grande risco de não sermos ouvidos nem na terra nem no
céu. O cantor do salmo 42 (SBB) passava por terrível medo diante da
força do mar e foi nas suas ondas que encontrou a razão do seu
desespero, pois se multiplicavam sobre ele como abismos que chamam
outros abismos. Trazia na memória tempos felizes, mas a comparação
mais ainda aumentava a sua dor. Ele clamava. Assim o clamor se
apresenta neste mundo, cheio de dor, tristeza, desolação, em que
nenhuma palavra humana parece ter força de consolo. São vozes que
gritam: “meus filhos e filhas, ah! meus filhos! Meus pais, ah! meus
pais! Meus amores, ah! meus amores! Meus irmãos e irmãs, ah! meus
irmãos! Meus amigos e amigas, ah! meus amigos!” Os gritos invadem
os espaços e a história, penetram gabinetes, incomodam autoridades,
comovem o país, põem desnudos os lucros da ganância, denunciam. Os
gritos, cada vez mais intensos e profundos são também um apelo, uma
prece Àquele Deus aparentemente distante: “Onde está o teu Deus”,
ouve o salmista, como zombaria.
Ao fim, o salmista encontra o que
procurava. Mas encontra somente em Deus, seu Salvador. Buscamos esse
Deus e Salvador para o socorro de todos e todas que sofrem sem
consolo por terem perdido seus queridos, mesmo que não creiam, mesmo
que não tenham nenhum conhecimento desse Deus amoroso que vem ao
nosso encontro na nossa angústia e nos enxuga as lágrimas que teimam
em não cessar. Esse Deus que não quer o mal a nenhuma de suas
criaturas, que nos adverte dos perigos da soberba e da ganância e
que pedirá contas de todos os que menosprezam a vida. Pedimos a esse
Deus porque Ele é a fonte do Amor, da Justiça e da Paz, que nos dá
braços que podem abraçar aflitos, mãos que podem sustentar
desvalidos, corações que podem acolher os que estão desnorteados.
Ele nos envia às famílias em sofrimento desmedido, para chorarmos
juntos, clamarmos juntos, denunciarmos juntos e, juntos, nos
consolarmos nos Seus braços. A memória nos fará encontrar forças
para prosseguir, o amor que dedicamos aos queridos que partiram,
Deus o usará para nos consolar, e o usará em nós para a luta em
favor da vida plena, ainda que na condição de dor e sofrimento, mas
em esperança de que haverá a Vitória sobre toda lágrima, toda morte.
Ouve, ó Deus amoroso, o clamor de
todas estas famílias em sofrimento e, em Cristo, faze justiça a
todas elas.